Ao Encontro da Terceira Idade PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quinta, 27 Novembro 2008 14:58

Encontro da 3. Idade

A Direcção do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social organizou com pleno êxito, em dia 13 de Outubro de 2007, o Encontro
"Saber e Sentir a Terceira Idade".

O evento, que teve lugar na Biblioteca Almeida Garrett, no Palácio de Cristal, no Porto, visou a troca de experiências e reflexão dos profissionais, investigadores/as e outros cidadãos e constituiu um momento de sensibilização para saber sentir esta fase da vida.

No auditório da Biblioteca Almeida Garrett estiveram cerca de 240 participantes, representantes de várias instituições e profissionais do sector.

Participaram como oradores, da parte da manhã, a Dr.ª Sílvia Azevedo (Técnica Superior de Educação Social), dirigente do nosso sindicato que organizou este Encontro. Após uma breve introdução, apresentou um documento relativo às condições de trabalho de pessoas que lidam com os idosos nas instituições, intitulado
“Contributo para a Dignificação do Trabalho com Idosos”.

Iniciou-se o encontro com o Presidente do Sindicato, Eduardo Valdrez, que fez a abertura do Encontro. De seguida, a Dra. Dulce Guimarães apresentou um diagnóstico das instituições de apoio à terceira idade e desenvolveu algumas perspectivas de solução para o que se passa com os idosos; o Dr. João Semedo, médico, fez uma intervenção sobre o papel dos profissionais de saúde numa óptica de defesa dos valores éticos e da educação para a saúde e, por último, a Dr.ª Ângela Pinho falou sobre o papel dos diferentes actores sociais (família, amigos, vizinhos...).

Após o intervalo, iniciando a tarde, participou o Grupo da Terceira Idade de Rancho Folclórico “Grupo das Avós” que durante quase uma hora fez uma bonita apresentação, dançou e cantou proporcionando um excelente momento de confraternização emprestando um toque de alegria e vivacidade ao Encontro. 

Seguiu-se o painel sob o título “A Animação Sociocultural e as Actividades de Animação com Idosos” apresentado pelo Sociólogo Professor Dr. João Teixeira Lopes e pela Dr.ª Maria José Araújo, em que foi desconstruído algumas ideias feitas sobre esta fase da vida, sobre a animação sociocultural e as actividades com idosos.

Coube, ainda, um momento para a apresentação do Projecto “(C)IDADE”, protagonizado pela Enfermeira Dr.ª Isabel Ferreira da Associação “Médicos do Mundo” que, no âmbito de uma experiência de voluntariado, transmitiu um importante exemplo de uma das múltiplas iniciativas possíveis para acompanhamento e ocupação dos idosos.

O Encontro da Terceira Idade, que prosseguiu até às 17 horas, proporcionou, por fim, um momento de debate, onde não faltou a abordagem da situação laboral dos trabalhadores das IPSS e de outros organismos, particulares ou do Estado, para quem se pretende uma maior dignificação da profissão.

Já no final, foi ainda efectuada uma síntese das principais conclusões pela Enfermeira Dr.ª Maria Ferreira da Associação “Médicos do Mundo”, as quais foram transmitidas às entidades competentes.

CONCLUSÕES

No encontro do dia 13 de Outubro de 2007 foi atingido o objectivo inicialmente proposto pelo Sindicato: Contribuir para uma reflexão sobre as práticas profissionais.

Para uma síntese das suas conclusões julgamos pertinente abordar os principais tópicos referenciados pelos palestrantes e assembleia:

  • Não há uma resposta única para as necessidades dos idosos e sim a necessidade de múltiplas respostas.
  • Indisponibilidade e/ou impossibilidade da família em garantir os cuidados ao idoso.
  • Importância das equipas transdisciplinares, formação das equipas e de uma maior responsabilidade das instituições e das famílias.
  • O envelhecimento é uma preocupação de todos. DEVE SER!
  • Articulação difícil da sociedade activa com os idosos.
  • As famílias não estão preparadas para ter no seu meio uma pessoa idosa. O que implica uma reorganização da família e dos actores sociais.
  • A valorização do papel do idoso deve ser vista como uma forma de inclusão.
  • É importante que cada um de nós se questione acerca da nossa própria perspectiva sobre o envelhecimento e também acerca daquilo que queremos para nós próprios quando estivermos nessa condição.
  • Valorização da educação para a saúde, do despiste precoce de patologias e da intervenção no domicílio.
  • Importância da contextualização histórica na definição do conceito de envelhecimento/idoso.
  • A idade é só um número!
  • O que é actividade é acção. Não tem especificidade em relação ao grupo social em questão. Deve sim ter um ajuste em relação aos recursos que são utilizados.
  • Os trabalhadores que lidam com idosos merecem mais apoio em termos de condições profissionais e de meios para a melhoria da sua participação, nomeadamente formação profissional.

 



SÍNTESE DOS COMENTÁRIOS E OPINIÕES MANIFESTADAS NOS INQUÉRITOS RESPONDIDOS
PELOS PARTICIPANTES DO ENCONTRO


Baseado numa análise a 74 inquéritos, respondidos no decurso do próprio encontro, escritos por outros tantos participantes, podemos concluir:

A iniciativa foi muito positiva.

Todo o trabalho desenvolvido neste encontro que o sindicato fomentou merece um grande elogio.

Serão encontros para dar continuidade onde se enriquece os conhecimentos e as realidades actuais.

As pessoas aderiram porque gostaram francamente do que lhes foi facultado, devendo ser salientado todo o interesse que o tema despertou. Trocaram-se assim aprendizagens e saberes que fortalecem a forma como os idosos podem e devem ser tratados, nesta sociedade que muitas vezes os esquece.

Todos os debates foram muito importantes, especialmente a intervenção do Professor Dr. Teixeira Lopes.

A actividade do Rancho das Avós deve ser especialmente salientada.

Foi também digna de nota a menção à inter-acção escolas/lares, pois o convívio entre idosos e crianças é salutar.

Em suma, o Encontro foi muito positivo, desde a organização à escolha dos oradores. Encontros de Terceira Idade, ou de outra área são para continuar, pois alertam a população para algumas realidades que por vezes são camufladas.

 



Documento em debate sobre a situação laboral do sector


Encontro da Terceira Idade – 13 de Outubro de 2007

CONTRIBUTO PARA A DIGNIFICAÇÃO DO TRABALHO COM IDOSOS

Apesar de apenas cerca de 10 por cento das pessoas com mais de 65 anos beneficiar de algum tipo de apoio, nem sempre os estabelecimentos e instituições de apoio aos idosos tem as melhores condições em termos de pessoal e de perspectivas. Muitas vezes, as Direcções e Entidades Patronais mantêm uma relação tensa com os sindicatos, na Negociação Colectiva e no respeito pelos direitos de organização dos seus trabalhadores.

As Instituições que se dedicam ao acolhimento e tratamento de idosos carecem, por isso, de mais pessoal e de pessoal mais qualificado, sendo difícil entender, por vezes, as orientações adoptadas, sobretudo quando se trata de apoio a utentes mais carenciados que não podem viver em residenciais onde têm de ser pagos, logo à entrada, milhares de euros pela estadia.

A carência de serviços de apoio envolvente, é ainda mais preocupante se atendermos à tendência para o adiamento da idade de reforma. Com a actividade a estender-se até aos 67 anos ou mais – e as reformas antecipadas fortemente penalizadas, cuidar dos pais será uma tarefa cada vez mais difícil.

Os trabalhadores que lidam com os idosos merecem muito mais. Têm direito a ser tratados com dignidade, incluindo a entrada em vigor de uma política laboral que respeite os seus direitos e tenha em conta as suas actuais dificuldades e as exigências de qualidade que se impõem.

Actualmente verificam-se Rácios vinculativos em lar de idosos distribuídos do seguinte modo:

- Um director técnico; nos lares com menos de 30 utentes, o director técnico poderá estar afecto a tempo parcial, não inferior a 3 horas por semana
- Um educador social ou um assistente social e um psicólogo a 25% para 60 utentes
- Um técnico de reabilitação/animador, no mínimo de 5 horas por semana
- Uma encarregada de serviços gerais para um lar com 40 ou mais utentes
- Um ajudante de lar ou ajudante de acção directa para cada oito utentes autónomos e um ajudante de lar ou ajudante de acção directa para cada 30 utentes, para assegurar a vigilância nocturna
- Um auxiliar de serviços gerais para cada 15 utentes autónomos
- Um porteiro/ recepcionista/telefonista de lar

Do grupo não-técnico, os ajudantes de lar e o pessoal auxiliar são os trabalhadores mais numerosos. (1751 e 781 respectivamente). Mas, há todo um conjunto de outras categorias inseridas neste trabalho, que precisam de maior atenção, como é, ainda, o caso dos Auxiliares de Acção Médica.
O trabalho de todos estes profissionais não está a ser devidamente compreendido e apoiado, nem pelo Estado, nem pelas IPSS.

Sendo estes os trabalhadores que lidam directamente com idosos, em Portugal, torna-se urgente e fundamental que este serviço de apoio a idosos, difícil, mal remunerado (média de 400 a 500 Euros), passe a ter uma imagem e tratamento mais dignificante.

A tendência é para aumentar a procura por estes serviços, fruto do aumento demográfico dos idosos e da capacidade menor por parte das famílias para tratar com este problema.

Não se verifica uma política correcta neste sector, pois as trabalhadoras são em baixo número e têm dificuldade em conseguir realizar o seu trabalho com mais qualidade, pois o emprego assenta na polivalência.

A existência de dificuldades em recrutar novos trabalhadores e trabalhadoras para os Lares de idosos é uma realidade.

Trata-se de um sector que emprega sobretudo mulheres (98%) e que se “feminizou” por um lado, pelas qualidades femininas para este tipo de funções - limpeza, auxílio e prestação de cuidados - e por outro, devido à massiva entrada de mulheres no mercado de trabalho. Assim, as mulheres recrutadas não necessitavam de uma formação adequada pois são mão-de-obra barata cuja habilitação profissional era as suas qualidades humanas, vontade e intuição. Neste momento a média de idades é de 42 anos e apesar dos seus saberes, de inquestionável importância, vêm-se na contingência de ser substituídas ou continuar mal remuneradas.

Assim, tendo em conta o momento da realização do Encontro da Terceira Idade, no dia 13 de Outubro de 2007, no Auditório Almeida Garrett, Palácio de Cristal, no Porto pretende-se:

- Actualização condigna dos salários

- Oposição à lógica dos ritmos e formas de trabalho que implicam desumanização e perdas de competência ou que afastam a possibilidade de formação

- Direito à formação profissional inicial no local de trabalho com duração mínima de um ano

- Prática de horários efectivos menores do que 38 horas, até ao nivelamento para todas as Instituições para 36 horas

- Reposição do período nocturno das 20 horas às 7 horas

- Oposição às privatizações dos serviços públicos em geral e criação de mais emprego público na área de tratamento e acompanhamento de idosos com ampliação da rede pública de Lares.

13 de Outubro de 2007

A DIRECÇÃO

 


 

 

 



INTERVENÇÃO DO PRESIDENTE DO SINDICATO NO ENCONTRO
“SABER E SENTIR A TERCEIRA IDADE"


Bom dia!

Caros convidados e convidadas, amigos e participantes deste primeiro Encontro do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde Solidariedade e Segurança Social “Saber e Sentir a Terceira Idade”.
É com muito gosto que o Sindicato acolhe este Encontro que esperamos se constitua num momento de reflexão e troca de experiências com certeza proveitosas, quer para os profissionais deste sindicato que todos os dias, com empenho, se dedicam ao seu trabalho.
Muitas vezes falámos em envelhecimento da população como se isso constituísse um grave problema e não tanto como um benefício que é como todos sabem – estar vivo! Será um problema se não se lutar pela qualidade de vida, se não formos sensíveis e tolerantes com aqueles e aquelas que ganharam o direito a descansar, o direito a não fazer nada ou fazer o que apetece.
Será um problema se não nos unirmos em prol de políticas sociais capazes de contribuir para que esse direito ao descanso seja “gozado” com o máximo de dignidade e conforto e se o Estado, dominado por governos neoliberais, se demitir do seu papel social.
Será um problema se não houver instituições de apoio com condições físicas, recursos materiais e humanos capazes.
Será um problema se os profissionais não tiverem condições de trabalho, salários capazes, etc. que dignifiquem a sua profissão.
Mas seguramente não será um problema por se ficar velho ou por se ficar vivo mais tempo!
Velhos são os trapos como diz o poeta e imaginar que quando se atinge a adultez se fica velho, dispensável, se deixa de ser necessário é um pensamento muito pequeno e muito mesquinho. Mesquinho porque se reduz a uma lógica economicista e quantitativa. O discurso sobre o envelhecimento da população tem tido este carácter – já não valem a pena, são números, estatísticas, dispendiosos, caros ao Estado, contribuíram durante anos mas agora o que o Estado queria era investir nos novos!
Imaginar que as Instituições de Apoio à Terceira Idade são cemitérios de gente viva é desconhecer a realidade das instituições e das pessoas.
Paradoxalmente o preconceito sobre esta fase da vida é exactamente o mesmo que se tem com outras fases da vida. As crianças são vistas como seres irrazoáveis que só gostam de brincar, os jovens como inseguros, adolescentes irrequietos que têm muito a aprender. O discurso político é isso mesmo - discurso. Os adultos ou os idosos tão depressa são considerados como mestres do saber, já tem 80 anos e ainda concorre às eleições ou como uns coitados que já tem oitenta anos e não valem nada. De facto, o tom, o olhar e a forma como lidamos com as diferentes idades da vida depende do contexto em que vivemos, dos nossos preconceitos e também da nossa vontade em perceber que a idade não é só um número.
É justamente para contrariar as políticas neoliberais que não investem em quem já não dá lucro e para contrariar os discursos já feitos sobre a terceira idade que nos reunimos hoje aqui. Pretendemos contribuir para uma reflexão sobre as praticas profissionais das pessoas que todos os dias lidam com os utentes dos Centros de dia, fazem apoio domiciliário, do Papel do Estado, das redes de solidariedade, das actividades de desporto, da saúde etc.
Mas hoje falaremos sobretudo de VIDA. Da vida das pessoas, da vida dos profissionais das instituições que se dedicam ao apoio social. Esperamos ouvir desse lado do público tantas outras questões, para que os momentos de debate se constituam em aprendizagens e troca de experiências diversas.
Há no Porto uma média de 80 mil reformados e pensionistas, dos quais, cerca de 46 mil com mais de 65 anos. É cerca de 15% da população residente, havendo freguesias em que a percentagem atinge os 20%. Nos concelhos limítrofes este fenómeno varia entre os 7,1%, em Valongo e os 9%, nos restantes concelhos, chegando a atingir os 10,5% em Espinho.
A nível nacional há 18 mil idosos à espera de apoio para conseguirem entrada num lar! Os valores das pensões e reformas são, de um modo geral, muito baixos. A maioria recebe pensões mínimas, ou seja, pouco mais de… 250 euros no regime geral de Segurança Social, e apenas… 150 euros nos regimes não contributivos. Os lares privados cobram preços fora do alcance para a larga maioria da população, etc., etc.
Os trabalhadores que lidam com os idosos e os próprios idosos merecem muito mais.
Em nome do Sindicato… agradeço mais uma vez aos nossos convidados por estarem aqui hoje e desejo a todos um bom trabalho e um bom Encontro.

Muito obrigado

Eduardo Valdrez

 

 

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